Álbum de 1971 que associou Clara Nunes ao samba ainda dá frutos

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Morte precoce da cantora mineira completou 38 anos nesta Sexta-Feira da Paixão, 2 de abril.

clara1971Álbum de 1971 que associou Clara Nunes ao samba ainda dá frutos 50 anos após o lançamento.

Crédito da foto: Jacques Avadis

♪ MEMÓRIA – Há álbuns que definem a imagem de um artista. E, entre esses álbuns, há aqueles cujo sucesso acaba gerando mudanças não somente na carreira do artista, mas no mercado fonográfico, impactando até as trajetórias de outros cantores.

É o caso de Clara Nunes, álbum lançado pela gravadora Odeon em 1971. Decorridos 50 anos, este disco ainda dá frutos, saboreados por cantoras que se espelham na luminosa e já cristalizada imagem da cantora mineira nascida com o nome Clara Francisca Gonçalves (12 de agosto de 1942 – 2 de abril de 1983) e popularmente conhecida pelo Brasil como Clara Nunes. Uma grande cantora do Brasil, cuja morte precoce, aos 40 anos, completa exatos 38 anos nesta Sexta-feira da Paixão, 2 de abril de 2021.

A importância do álbum Clara Nunes nem reside tanto no disco em si, bom sem ser obra-prima, mas em tudo que provocou na carreira da artista dali em diante, com consequências nas trajetórias de cantoras como Alcione, Beth Carvalho (1946 – 2019) e Elza Soares. É que Clara Nunes – o disco arquitetado pelo produtor musical e radialista Adelzon Alves – marcou a conversão da cantora ao samba, gênero ao qual Clara passou a ser associada desde então.

Embora articulada como estratégia de marketing, para dar a Clara o sucesso e o prestígio que a cantora perseguia desde que lançou o primeiro disco pela Odeon em 1966, essa associação ao samba foi empreendida com honestidade por Clara Nunes, que, a partir desse álbum de 1971, conseguiu o reconhecimento da crítica, o sucesso do público e a estabilidade na carreira fonográfica.

Para entender a importância desse quarto álbum de estúdio de Clara Nunes na carreira da artista, é preciso compreender a via-crúcis da cantora no caminho até o sucesso encontrado de forma definitiva em 1971.

Contra a vontade, Clara tinha sido apresentada ao Brasil pela gravadora Odeon há então cinco anos como cantora de boleros, gênero dominante no repertório do sofrível álbum A voz adorável de Clara Nunes (1966).

O disco foi ignorado, assim como a cantora. Clara então flertou com o reino da Jovem Guarda e com o universo da música de festival – praticamente um gênero na segunda metade dos anos 1960 – enquanto lançou mais dois álbuns, Você passa eu acho graça (1968) e A beleza que canta (1969).

No LP de 1968, a cantora ensaiou aproximação com o universo do samba e emplacou um primeiro eventual hit, a música-título Você passa eu acho graça, samba composto por Carlos Imperial (1935 – 1992), que, hábil marqueteiro, teve a ideia de convidar o já consagrado Ataulfo Alves (1909 – 1969) – mineiro como Clara – para assinar a música em parceria na qual, a rigor, Ataulfo contribuiu somente com a mudança de uma palavra em um dos versos da letra (“mulher” por “criatura”, como detalha o jornalista Vagner Fernandes na fundamental biografia Clara Nunes – Guerreira da utopia, editada em 2007).

Apresentado no festival O Brasil canta o Rio (1968), o samba Você passa eu acho graça pavimentou o caminho para o êxito relativo do homônimo segundo álbum de Clara, o melhor LP da irregular trilogia fonográfica da artista nos anos 1960. Mas o fato é que, contra todos os prognósticos, houve inexplicável retrocesso no álbum seguinte, A beleza que canta, disco de 1969 em que até o título soou antiquado.

A carreira de Clara Nunes parecia sem futuro em 1970. Foi quando entrou em cena Adelzon Alves com a proposta de associar o canto de Clara ao samba e às “raízes da cultura popular brasileira”, como o produtor contextualizou no texto escrito para a contracapa do disco.

A estratégia incluiu aproximar a artista das escolas de samba – recebida com frieza na Mangueira, Clara foi acolhida na Portela e retribuiu o carinho até o fim da vida – e até remodelar o visual da cantora. Antes de adotar imagem estilizada de baiana, propagada já na capa do álbum subsequente de 1972, Clara cortou o cabelo, como visto na foto de Jacques Avadis estampada na capa do LP de 1971. Capa em preto e branco que contrastou com a palheta de cores do repertório selecionado por Adelzon Alves.

Por ter programa de rádio dedicado ao samba, Adelzon era comunicador influente e respeitado pelos bambas e por diretores de gravadoras. Antes de ganhar o aval para produzir o álbum definidor de Clara Nunes, Adelzon testou a estratégia com single duplo no qual a cantora deu voz aos sambas-enredos Misticismo da África ao Brasil (Mário Pereira, João Galvão e Wilmar Costa) e Festa para um rei negro (Zuzuca), apresentados pelas escolas Império da Tijuca e Salgueiro, respectivamente, no Carnaval daquele ano de 1971.

Uma das obras-primas do gênero, Misticismo da África ao Brasil transcendeu a folia na gravação de Clara e impulsionou a gravação do álbum, no qual o samba-enredo da Império da Tijuca foi incluído entre as 14 faixas do LP com arranjo esplendoroso.

Na sequência, o sucesso do samba de quadra Ê baiana (Baianinho, Ênio Santos Ribeiro, Fabrício da Silva e Miguel Pancrácio, 1971) – lançado no LP e também editado em single duplo que trazia, no lado B, o samba-canção Meu lema, parceria do então ascendente cantor e compositor João Nogueira (1941 – 2000) com Gisa Nogueira também incluída no disco – consolidou a conversão de Clara ao samba.

Mesmo sem ter alcançado vendas excepcionais (24 mil cópias, pelas contas oficiais da gravadora Odeon, como relatou Vagner Fernandes na já mencionada biografia do cantora), o álbum Clara Nunes mudou para sempre a vida da cantora. E também as de outras cantoras.

Quando a diretoria da Odeon viu que a estratégia de Adelzon Alves dera certo, a gravadora – antes insegura – passou a tratar Clara Nunes como prioridade no segmento do samba. Beth Carvalho, que também era do elenco da companhia, percebeu isso e teve que migrar para a pequena gravadora Tapecar para poder dar continuidade à carreira sem ficar na sombra de Clara.

Ao voltar de exílio na Itália, Elza Soares ainda gravou álbum em 1972 pela Odeon, gravadora que a tinha lançado em 1959, mas, enciumada diante da escalada do sucesso de Clara, praticamente forçou o rompimento dos laços profissionais com a gravadora em 1973, também indo para a Tapecar.

Cantora cujo sucesso se ampliou a partir de 1974 com o álbum Alvorecer, motivando outras gravadoras a investirem em cantoras de samba (brecha que fez da então desconhecida Alcione a aposta da rival Philips), Clara Nunes faria álbuns ainda mais luminosos de 1972 a 1982, mas o ponto de virada foi mesmo o LP de 1971.

Escutando o disco 50 anos depois, dá para perceber que cantora e produtor ainda tateavam à procura de identidade entre as tais “raízes da cultura popular do Brasil”, mas o repertório tangenciou a coesão em seleção que extrapolou o universo do samba carioca.

Clara gravou frevo então recente do compositor pernambucano Luiz Bandeira (1923 – 1998) – Novamente (1968) – e fez incursão pelo repertório forrozeiro de Luiz Gonzaga (1912 – 1989), de quem Clara reviveu o xote Sabiá (1951), parceria do Rei do baião com Zé Dantas (1921 – 1962).

Com naturalidade, a cantora transitou entre o Rio e o nordeste do Brasil. Samba então inédito alocado na abertura do disco, Aruandê… Aruandá (Zé da Bahia, 1971) inseriu a mineira para a roda baiana.

Do mar da Bahia, Clara pescou Puxada da rede do xaréu (Maria Rosita Salgado Góes), tema enraizado no misticismo afro-brasileiro e inserido no disco na forma de duas vinhetas. Embora já estivesse decadente naquele ano de 1971, a era dos festivais reverberou na escolha de Participação (Didier Ferraz e Jorge Belizário, 1971), música moldada para as inflamadas competições.

Da então novata Geovanna, compositora carioca que batalhava por lugar no segmento do samba como cantora, Clara gravou Rosa 25, samba que caiu no esquecimento, assim como A favorita (Francisco Leonardo, 1971), outra pérola rara do disco.

Como mostrou a gravação de Feitio de oração (Noel Rosa e Vadico, 1933), sublime samba-canção abordado pela cantora sem o devido sentimento, o álbum Clara Nunes foi pautado pelos arranjos orquestrais do diretor musical do disco, Lindolpho Gaya (1921 – 1987), maestro que prestava serviços à gravadora Odeon.

Nem sempre fiel à cartilha do samba, gênero por vezes engessado em gravações de estúdio, Gaya criou orquestrações com certa pompa para o disco de Clara, sem trair o espírito de repertório formado por músicas hoje obscuras.

Dos compositores Paulo Diniz e Odibar, que viviam o auge artístico naquele ano de 1971 com músicas como Pingos de amor e Um chope para distrair, Clara regravou o então recente samba Canseira (1970), lançado no ano anterior na voz de Diniz.

No arremate do disco, a cantora apresentou o inédito samba-canção Morrendo verso em verso (1971), página melancólica do cancioneiro de João Nogueira, compositor que teria importância fundamental na expansão da discografia e do canto de Clara Nunes ao longo dos anos 1970.

Enfim, o álbum Clara Nunes pode nem ser o disco mais aliciante da cantora – e não é mesmo – mas é o mais importante, porque, sem ele, a luz da mineira guerreira talvez não tivesse se espalhado pelo Brasil com tanta força – a ponto de, em 2021, ainda haver cantoras que se lançam na música com inspiração na imagem de Clara Nunes, em prova de que, 50 anos após a edição, o álbum de 1971 ainda dá frutos.

(Fonte: Mauro Ferreira/G1)

Equipe de Jornalismo

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