Breno Silveira conta em filme a história feminina sobre o cangaço

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cangaco-mulherA figura do cangaceiro é um souvenir que se oferta nas prateleiras, forradas com artesanato local, de uma megaloja no Marco Zero do Recife. A poucos metros dali, Breno Silveira dirige, numa manhã de novembro, uma cena de seu próximo filme: a saga de duas irmãs sertanejas, uma delas transformada em rainha do cangaço.

A associação com Maria Bonita e Lampião, o primeiro casal do movimento, é imediata – e retratá-los era a ideia original do diretor e da roteirista Patricia Andrade, com quem trabalhou em “Dois Filhos de Francisco”, “Gonzaga” e “À Beira do Caminho”.

A dupla, inseparável, desejava retratar o banditismo que incendiou o Nordeste nos anos 1930 sob a perspectiva da rainha do bando. O intento, porém, ficou pelo caminho: a figura de Maria Bonita, ainda que reproduzida à exaustão, era inatingível. Não havia registros suficientes de sua intimidade para assegurar o roteiro, alertou-os Frederico Pernambucano de Mello, especialista no tema.

cangaco-mEis que chega a Patrícia o romance “A Costureira e o Cangaceiro”, da recifense Frances de Pontes Peebles.

Escrito originalmente em inglês (a autora mora nos EUA desde criança), o livro saiu em 2008 pela Nova Fronteira e está esgotado. O filme, ainda sem data de estreia, está previsto para este ano.

Com duas protagonistas fortes, a ficção caía bem na tela grande: Luzia (agora, Nanda Costa), a irmã aventureira, e Emília (Marjorie Estiano), a romântica, são filhas de costureira, com quem aprendem o ofício, e desejam mudar suas vidas.

Emília sonha em se casar e se mudar para a capital, pois não aceita a rudeza do sertão onde nasceu. Consegue um bom casamento, mas se decepciona com a sociedade arcaica do Recife, cheia de maneiras e preconceitos. No fim, acaba se tornando uma das precursoras do trabalho feminino naqueles anos 1930.

Luzia, para proteger a família, junta-se aos bandoleiros capitaneados por Carcará (Júlio Machado) e avança sertão adentro. À violência do cangaço ela impõe um novo senso de justiça, menos sanguinário.

Brasil Profundo

cangaco-mariaAlém das irmãs, há um terceiro protagonista: o sertão. A equipe morou durante um mês em Piranhas, Alagoas, onde Lampião e Maria Bonita foram capturados e decapitados em 1938.

Silveira conta que descobriu estar no local exato da derrocada dos Reis do Cangaço quando comentou com um pesquisador que pretendia filmar naquele mesmo ponto uma outra cena de execução.

“Parecia que tinha mais alguém pilotando o filme”, diz o diretor, sobre as coincidências na paisagem. “O sertão era tão vivo que contracenava com a gente. O calor [sob o figurino]e ter que tomar cuidado com os espinhos, com aranhas, isso deixava a gente mais atento, mais preparado”, afirma Nanda.

Enquanto filmavam interior adentro (de setembro a novembro), a capital do país vivia o auge da crise política, com os desdobramentos do impeachment de Dilma Rousseff. Estar naquele momento revisitando o Brasil profundo –cangaco-a-beira onde rodou “Gonzaga”, “À Beira do Caminho” e “Dois Filhos de Francisco”– ajudou a resgatar seus sentimentos pelo país: “Eu estava muito desiludido, em todos os sentidos. Há uma perda total de valores – parece que o Brasil não aprendeu nada, que as porradas políticas não transformaram a gente”.

“O sertão é grandioso em si”, continua. “Não tem a organização prevista de uma floresta, nem a beleza óbvia da mata. Como um lugar tão espremido pelo sol tem uma cultura tão forte? [Estar lá] trouxe um Brasil que achava que não existia mais.”

A paisagem é árida, mas a “A Costureira e o Cangaceiro”, como os outros filmes de Breno, pode despertar um vale de lágrimas. “A gente não tem que ter vergonha dos sentimentos. Me sinto um cara brasileiro, de raiz. Nossa passionalidade é diferente dos outros povos, a gente é mais exposto. Se meus filmes traduzem um pouco disso, traduzem o Brasil, também.” (Fonte: Folha de São Paulo).

 

Equipe de Jornalismo

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