Mais longevo parceiro de Gonzagão é lembrado em CD e documentário

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gonzagaDurante uma conversa despretensiosa na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, veio ao pernambucano João Silva a inspiração para a letra de Pagode russo, parceria com Luiz Gonzaga. Os dois viram um cossaco e, de pronto, o letrista de Arcoverde prometeu transformar em canção a polca instrumental de 1946. É a segunda música mais tocada do Rei do Baião, de acordo com o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad).

Assim, a partir de fatos do cotidiano, surgiram outras tantas obras do vasto cancioneiro de João Leocádio da Silva, um dos principais parceiros de Luiz Gonzaga, especialmente após a década de 1960. Os memoráveis versos de Danado de bom, Nem se despediu de mim e Deixa a tanga voar foram escritos pelo homem baixinho, de respostas rápidas e personalidade forte que aprendeu a escrever com a tia, com o auxílio de uma xícara de café, e começou a tocar pandeiro aos 7 anos.

Morto aos 78 anos, em dezembro de 2013, um ano após ser agraciado com o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, João Silva é lembrado em dois projetos que devem ser lançados neste ano: o CD João Silva para sempre e o documentário Danado de bom. De Deby Brennand, o filme leva no título o nome da música em parceria com Luiz Gonzaga já cantada por Elba Ramalho, Luiz Caldas e Zeca Baleiro. Com o disco homônimo, de 1984, o Rei do Baião conquistou, pela primeira vez, um disco de ouro – na verdade, foram dois de ouro e um de platina, após vender 1,6 milhão de cópias. Pagode russo e Sanfoninha choradeira ajudaram a impulsionar o sucesso.

Autor da biografia Mestre João Silva: Pra não morrer de tristeza (Bagaço, esgotada), o poeta e escritor José Maria Marques divide a produção do disco de inéditas com Dina Nogueira, ex-companheira dele, e o sanfoneiro Mestrinho, filho dela. As faixas de abertura (Saudade que atropela, com Dina Nogueira) e de encerramento (Marinheiro, maré, mar) foram gravadas, por ele próprio, quando preparava o projeto para disputar o edital de fomento do Funcultura, em 2012.

Com a morte dele, no ano seguinte, Dina decidiu transformá-lo em homenagem póstuma. Os cantores Maciel Melo, Josildo Sá, Santanna, Petrúcio Amorim, Cláudio Rabeca, Thais Nogueira e Mestrinho são participações confirmadas. As gravações devem ser realizadas em agosto. A equipe tenta arregimentar para o tributo Elba Ramalho, voz feminina do dueto com Gonzagão de Sanfoninha choradeira. Procurada pela reportagem, ela se mostrou animada. “Ainda não fui convidada, mas será um prazer”, adianta.

O longa-metragem Danado de bom surgiu a partir de conversas de estúdio, quando o compositor se dedicava às gravações de um álbum, em 2007. “Ao longo dos anos, fomos desenvolvendo o documentário e a nossa amizade também. Fui vendo como era linda a história dele, não só de compositor, mas de vida”, conta Deby. As pesquisas foram dificultadas pela ausência de material guardado, como documentos e fotografias, revela a cineasta. Atualmente, ela mantém, num caderninho, lista com as mais de três mil composições dele.

O processo de descoberta foi impulsionado por uma emocionante viagem de 12 dias, na qual personagem, diretor e equipe ganharam as mesmas estradas percorridas por João Silva, ainda menino, em companhia do pai, agricultor. Caraíbas, distrito de Arcoverde onde nasceu, Serra Talhada, Juazeiro do Norte, Exu, Araripe, Caruaru e Olho D’água de Baixo, perto da fronteira com o Ceará, onde morou com o pai após a mãe deixar a família, foram alguns destinos.

Durante as filmagens, João voltou ao fim da década de 1940, quando se mudou para o Rio de Janeiro com “uma mão na frente e outra atrás”. Pintor de automóveis, ele morava em um albergue de portugueses, participava de programas de calouro na rádio. Começou a se destacar após ser contratado como locutor do programa Trabalhador se diverte, ainda sem imaginar que se tornaria um dos parceiros mais longevos do ídolo, do qual foi parceiro e amigo até o fim da vida.

BASTIDORES

Alfabeto na xícara

Uma xícara substituiu o giz e quadro negro na infância: o contorno completo era um “o”, a partir do qual poderia ser escrito um “a”. Assim, escreveu pela primeira vez o nome e, com a leitura de placas nas ruas, ampliou o vocabulário. Também por conta própria, aprendeu a tocar violão.

Briga com o Rei

Antes de conhecer Gonzagão, lançou, com Miguel Lima e Severino Januário (irmão de Gonzaga), Promessa. A voz era confundida com a do ídolo e ele vendeu bastante. “Num quero nem ver esse compositorzinho de merda na minha frente”, dizia, irritado, o Rei do Baião, contou João Silva ao biógrafo José Maria.

Homem de botequim

A fama de mulherengo e beberrão sempre acompanharam João Silva. Com Gonzaga, a negociação era separar o horário do trabalho sério e o do recreio, no qual era permitido beber. Um dos companheiros de bar foi João do Vale, coautor de Não foi surpresa, primeira música dele gravada pelo Rei do Baião, em 1964.

Alegria de Gonzagão

Na década de 1980, as canções tristes sobre o Sertão, como Asa branca e Assum preto, já não vendiam tanto. João Silva foi um dos responsáveis por fazê-lo incorporar bom humor e irreverência ao cancioneiro. São dessa época Pagode russo, Deixa a tanga voar e Danado de bom.

Fonte: Diário de Pernambuco

 

Equipe de Jornalismo

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